O "sonho americano" que atracou no Brasil, acabou naufragando em águas rasas e traiçoeiras
O que começou como um ambicioso empreendimento industrial, capaz de atravessar oceanos e prometer prosperidade, terminou como um símbolo de frustração e abandono. O Projeto Jari, idealizado para ser um modelo de modernização e riqueza no coração da Amazônia, hoje jaz afogado em dívidas e incertezas à beira do rio Jari.
Com salários atrasados e uma burocracia asfixiante, o que antes era a promessa de uma “terra dourada” transformou-se em um legado de sucata, desesperança e desencanto. A história não poupou nem seu visionário fundador, o bilionário norte-americano Daniel Ludwig, nem o futuro daqueles que depositaram suas esperanças na grande obra.
Monte Dourado, a cidade construída para dar suporte ao projeto, segue tentando preservar a dignidade de suas origens. O outrora imponente colégio Positivo deu lugar ao agora colégio Jari, enquanto seus clubes e espaços de lazer estão gradualmente sendo engolidos pela vegetação amazônica. Já o município vizinho Laranjal do Jari, que antes vivia à sombra do projeto, hoje prospera de forma independente, enquanto os antigos trabalhadores da Jari Celulose enfrentam o desemprego, dívidas acumuladas e a dura realidade de sobreviver sem perspectivas.
Da ambição à ruína
Fundado em 1967, o Projeto Jari foi concebido como um dos maiores empreendimentos industriais privados do Ocidente, ocupando uma área quase equivalente ao estado de Sergipe na divisa entre Pará e Amapá. Ludwig investiu em uma estrutura impressionante: uma fábrica de celulose montada no Japão e transportada até o Brasil em uma travessia de 87 dias. Infraestruturas como ferrovias, portos e uma cidade inteira foram erguidas para sustentar o projeto.
No entanto, o sonho encontrou resistências desde o início. O governo brasileiro, organizações sociais e a opinião pública temiam os impactos ambientais e questionavam a soberania nacional sobre a região. Mesmo com o potencial econômico, o projeto sempre esteve envolto em polêmicas, incluindo investigações parlamentares sobre desmatamento e exploração predatória da Amazônia.
Um futuro incerto
O colapso da Jari Celulose é um exemplo clássico de como ambição desmedida, aliada à má gestão, pode levar uma empresa promissora à ruína. Desde a paralisação das atividades em 2022, a fábrica mergulhou em um ciclo de salários atrasados, operações inviáveis e dívidas incontroláveis, culminando em um processo de recuperação judicial que já se arrasta rumo à falência (ainda não decretada).
Apesar do anúncio de um investimento do BNDES em 2023 com a esperança de reativar as operações, o horizonte continua desolador. O que um dia foi um símbolo de progresso transformou-se em uma lição amarga sobre os riscos de ignorar as particularidades regionais e a complexidade econômica em projetos de grande escala. O "sonho americano" que atracou no Brasil, acabou naufragando em águas rasas e traiçoeiras.
As acusações por parte de trabalhadores e especialistas variam: para alguns, o principal culpado é Sérgio Amoroso, responsável pela empresa; para outros, o próprio BNDES, maior credor do projeto; e há quem responsabilize toda a gestão que passou pelo Vale do Jari. Soma-se a isso a debandada do alto escalão da empresa, que abandonou o navio em meio à crise, agravando a sensação de descaso com os colaboradores. Uma cadeia de escolhas desastrosas selou o destino de uma empresa que, hoje, é mais lembrada por seus erros do que por suas conquistas.

